O novo império de Carlos Wizard

18/04/2017

O Estado de S. Paulo – Cátia Luz – 16/04 Três anos após vender o Grupo Multi, de escolas de inglês, por R$ 2 bi, fundador comanda hoje uma companhia quase do mesmo tamanho Há três anos, Carlos “Wizard” Martins surpreendeu o mercado ao anunciar a venda, por quase R$ 2 bilhões, do Grupo Multi, […]

O Estado de S. Paulo – Cátia Luz – 16/04

Três anos após vender o Grupo Multi, de escolas de inglês, por R$ 2 bi, fundador comanda hoje uma companhia quase do mesmo tamanho

Há três anos, Carlos “Wizard” Martins surpreendeu o mercado ao anunciar a venda, por quase R$ 2 bilhões, do Grupo Multi, dono das escolas de inglês Wizard e da rede profissionalizante Microlins, à britânica Pearson. A operação, a maior aquisição em educação já feita no País até então, chamou a atenção não só pelo seu tamanho, mas também pelo “desapego” do fundador ao se desfazer de 100% de um negócio que, de tanto se identificar, acabou incorporando ao próprio nome – o empresário passou a assinar Wizard em 1989, por sugestão de uma franqueada.

Hoje, Wizard está longe da tranquilidade que o título de bilionário pode trazer. Após uma série de aquisições, comanda, ao lado dos filhos – os gêmeos Lincoln e Charles – um grupo quase do mesmo tamanho da antiga companhia. “Em 2018, a gente atinge os R$ 2 bilhões em valor”, informa.

A Sforza, empresa de private equity e family office da família, reúne negócios de diversos segmentos. “O que temos é um modelo de gestão de franquias, desenvolvido por 25 anos pela Multi, que agora está sendo aplicado na alimentação saudável, nas escolas de futebol ou no sistema de fast-food”, explica.

Apetite. O retorno ao mercado veio antes do esperado. O empresário, que tinha decidido tirar um ano sabático após o acordo com a Pearson, interrompeu o período para fechar a compra da Mundo Verde. A rede de produtos naturais, que pertencia ao fundo americano Axxon e tinha 250 unidades no País, tem hoje 400 lojas e cresce num ritmo de dois dígitos ao ano.

Em seguida, o grupo anunciou, em parceria com o ex-jogador Ronaldo Nazário, a criação de uma franquia de escolas de futebol. A Ronaldo Academy nasceu com a perspectiva de ter unidades no Brasil e nos Estados Unidos. Mas a maior expansão até agora veio da China, onde um grupo de investidores, estimulados pelo interesse do governo chinês em desenvolver o esporte no país, fechou contrato para a abertura de 30 escolas. Dez já estão em operação, em cidades como Pequim e Xangai.

No Brasil, de 35 contratos fechados, 15 franquias já estão funcionando. Nos EUA, a primeira escola começou a operar em janeiro. “Em franquia, o produto final é praticamente um detalhe. As dinâmicas, seja de uma sapataria ou de uma varejo de alimentos, são bem parecidas. A favor do grupo, pesa realmente esse modelo de implementação, monitoramento e gestão dos negócios criado por eles”, afirma Marcelo Cherto, consultor especializado em franquias.

Para completar o portfólio em esportes, o grupo comprou, no fim de 2015, as marcas Topper e Rainha. “São duas grandes marcas, mas que estavam abandonadas e representavam menos de 10% da receita da Alpargatas”, explica Wizard. A ideia do empresário é oferecer os produtos das marcas nas escolas.

“Cada empresa tem uma vocação. Mundo Verde e Taco Bell (fast food inspirada em comida mexicana) são mais voltadas para a geração de dividendos. A BR Sports (holding que detém Topper e Rainha) é uma operação em que investimos no crescimento para capturar um valor maior mais para frente”, diz Charles Martins, responsável pela avaliação de novos negócios da Sforza.

Pré-pago. Embora a franquia seja encarada pela família como a vocação do grupo, é uma startup especializada na emissão de cartões pré-pagos que tem se destacado nos negócios da Sforza. Criada em 2012 com o nome de Vale Presente e voltada principalmente para os gift cards (cartões pré-pagos usados para presentear), a empresa, que agora se chama Hub Prepaid, acabou ampliando sua atuação e hoje atende varejistas e governo.

A startup é responsável, por exemplo, pela lista de casamentos do Magazine Luiza e é o principal parceiro da Caixa Econômica Federal em alguns projetos, como o cartão Construcard (de financiamento para aquisição de material de construção) e o cartão BNDES (de crédito para empresas).

A Hub Prepaid chegou a ser alvo do interesse da própria Caixa, que fechou um acordo em 2014 para comprar 49% da companhia. Mas o negócio não foi adiante. Segundo Charles Martins, há agora outras propostas de compra, de fundos de investimento e de bandeiras de cartão.

Hoje a empresa, avaliada em R$ 1 bilhão, representa 50% dos negócios do grupo, de acordo com o executivo. Wizard diz que a companhia movimentou R$ 2 bilhões em 2016 e vem dobrando de tamanho a cada ano.

No mercado, há quem ache o valor atribuído à empresa otimista demais, mas ninguém nega o potencial do segmento. “Hoje, metade da população brasileira recebe seu salário em dinheiro. Com um nível ainda muito baixo de bancarização, há muito espaço para avanço de meios de pagamentos”, afirma um concorrente.

O setor de cartões tem atuado em três frentes: pessoas físicas (que compram o cartão para pagar diaristas ou a mesada do filho), empresas (principalmente as que têm mão de obra temporária, caso da construção civil) e governo.

“A Hub Prepaid tem a vantagem competitiva de ter chegado antes no atendimento ao governo e o diferencial de ter uma estrutura verticalizada, o que dá mais eficiência à operação da empresa”, diz uma fonte do mercado. No caso da empresa de Wizard, todo o processo – emissão e impressão dos cartões, administração financeira, autorização e processamento das transações – é feito dentro de casa, um edifício em Alphaville, com 200 funcionários e cara de banco.

Hoje, segundo cálculos genéricos feitos por rivais, o mercado de pré-pagos deve movimentar por ano R$ 10 bilhões.

Planos
Além da Hub Prepaid, a Sforza tem ainda a Orion, detentora da administração imobiliária do grupo, e uma participação na Logbrás, que investe em galpões logísticos. Com casa no Brasil e em Miami, e aulas diárias de mandarim, Wizard não tira os olhos de novos negócios. E admite a vontade de voltar ao setor de ensino – o prazo determinado pela cláusula de não competição, assinada com a Pearson, terminou no mês passado. “Eu sou um investidor. E acho que, no caso de educação, a oportunidade vai surgir sem eu precisar ir atrás”, afirma. “Acho que vão bater à nossa porta, porque construímos uma reputação nesse setor.”

Questionado sobre a motivação de investir diante da crise que o País enfrenta, o fundador da Wizard diz que tem visão de médio e longo prazo e não pensa em governo. “A Wizard nasceu no mandato de José Sarney, com Plano Cruzado, inflação de 70% ao mês e moedas que mudavam a cada seis meses. Se fosse me preocupar com o governo, nunca teria começado.”

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